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À Sétima é de Vez

Musings of a scientist wannabe, ou um blog pessoal que às vezes fala um bocadinho da vida de cientista.

À Sétima é de Vez

Musings of a scientist wannabe, ou um blog pessoal que às vezes fala um bocadinho da vida de cientista.

.disto de viver sozinha

Quando cheguei a Paris para trabalhar durante dois anos pensei que teria facilidade em integrar-me e fazer amigos, mais não fosse com outros portugueses (porque é verdade que aqui somos mais que as mães e quando menos esperas ouves a língua materna).

 

A verdade é que a coisa não correu bem como eu esperava, creio que por uma série de razões menores que no final formaram uma barreira para que fizesse amigos.

 


 

Começando pelo princípio... mudei-me aos 30 para trabalhar durante dois anos com um contrato de pos-doc e uma das hipóteses de alojamento que tinha era a residência universitária. Ora bem, de Setembro de 2004 a Junho de 2011, durante o meu percurso universitário e início de percurso profissional vivi sempre em casa partilhadas com... isso mesmo, outros estudantes universitários. Entre 2011 e 2013 partilhei casa com a minha irmã e a partir de 2013 eu e o namorado decidimos ir viver juntos, e era nessa situação que me encontrava quando aceitei esta proposta de trabalho. Tendo em conta este enquadramento, quando me mudei para aqui não pus a hipótese de pedir alojamento na cidade universitária porque simplesmente não me fazia sentido - a fase de partilha de espaço e de chatices com as tarefas domésticas já tinha ficado lá atrás.

 

Decidi que ficaria por minha conta, num espaço só meu (que se revelou um desastre total nos dois primeiros meses, mas adiante), em que poderia receber as pessoas que me visitassem sem restrições. Apresento-vos a razão menor número um.

 

A razão menor número dois foi o facto de ter vindo para uma posição de pos-doc. Contrariamente a vários outros amigos ou colegas, que saíram do país para fazer um Erasmus ou o doutoramento, eu vim para uma posição que não requer interacção com outros estudantes - isto significa que não há aulas com pessoas de idade próxima, ou que estão na mesma situação. Existe, no entanto, uma associação de Young Researchers (mais direccionada para os estudantes de PhD, mas também aberta a pos-docs jovens), mas as actividades que divulgam são sempre às 17.30 de um dia qualquer de semana que não a sexta-feira - e para mim as cinco e meia da tarde caem mesmo a meio do dia de trabalho, que é como quem diz, não me dá jeito nenhum.

 

Nos três primeiros meses em que cá estive frequentei duas turmas de FLE (Français Langue Étrangère): estive um mês na turma iniciada e depois dei o salto para a turma intermédia-forte, onde estive outro mês. Se na turma dos iniciados as 7 pessoas eram tão recém-chegadas como eu e até chegámos a combinar duas saídas para copos e um jantar, na turma dos intermédios o caso mudou de figura - estavam já todos mais ou menos estabelecidos e com laços, por isso nunca houve grande espírito de camaradagem. Infelizmente, assim que o trabalho começou a apertar, a turma dos iniciados deixou de combinar actividades e acabou por ficar cada um no seu canto - por comodismo, acho eu - a fazer amigos na mesma situação e da mesma nacionalidade. O facto de ser a pessoa mais nova (aos 31 anos) no laboratório denuncia a demografia do meu local de trabalho: são pessoas com quem estabeleces relações profissionais, boas, relativamente próximas, mas ainda assim, profissionais. Poderia ter ficado amiga do outro pos-doc do laboratório, que só tem mais um ano que eu e que chegou 3 meses antes, mas ele não estava para aí virado - aliás, com ele até a relação profissional se torna difícil, quanto mais uma relação de amizade. Não deixa de ser curioso que ele (que ficou na CitéU) tenha uma relação compeltamente disfuncional no laboratório com todos os colegas, mas depois dê a entender que fora do local de trabalho tem toda uma vida loca. Já eu, que me integrei bem no laboratório, tenho uma vida fora dele que é do mais básico e solitário que pode haver. Funny stuff.

 

Finalmente, numa tentativa de me manter ocupada, fit (pfff) e em sintonia com a família número dois que deixei para trás, inscrevi-me num ginásio (cujo requisito óbvio era ter aulas de Body Jam. E ser perto do comboio, já agora), pensando que podia tratar de duas coisas em simultâneo: fazer amigos novos e continuar com uma ligação aos antigos (pelo BJ; se bem que escrito parece uma coisa meio louca. Parece que tenho uma ligação pela Força com uma modalidade criada por um tipo chamado Ganfalf. Já vos consegui baralhar o suficiente?). O que eu não antecipava era que as pessoas, ao contrário do que acontece no meu minúsculo ginásio de cave em Lisboa, fossem tão fechadas a quem chega de novo. Com uma excepção ou duas, não há quem meta conversa, mesmo que eu já lá meta os cotinhos há um ano e frequente sempre as mesmas aulas, nos mesmos horários. Foi no ginásio que eu constatei que os franceses parisienses não são nada amistosos (esqueçam os empurrões no metro ou no RER, que indivíduos mal educados também os há em Lisboa). Pior, parisienses que praticam Body Jam e que não são simpáticos - deixam-se estar nos seus grupos de fãs, olham de lado e a empatia é inexistente para com quem chega de novo, sozinho. O horror. A tragédia. Valha-me Santo Gandalf. Voilà, a razão menor número três.

 

E eis que três pequenos pormenores ditam que a minha estadia aqui seja maioritariamente solitária, que me fazem palmilhar muitos quilómetros pelas ruas de Paris sozinha durante o fim de semana, que fazem de mim uma viajante ocasional desacompanhada e uma consumidora ávida de tudo o que sejam séries na Netflix, podcasts, livros (2017 foi provavelmente dos meus anos mais profícuos), filmes com o cartão UGC Illimité, museus (repetente no Museu do Louvre e no Museu d'Orsay e com tantos ainda por descobrir).

 

Não me apoquenta ser solitária, mas sinto falta de partilhar tudo isto com pessoas,umas fotos pelo Whatsapp não chegam


 

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